A VIDA É UM “TOUR DE FRANCE”
- tguedesbarros
- 17 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de out. de 2024
Toda viagem é um aprendizado. Sair do seu lugar de costume é um presente que você oferece a si mesmo, ampliando sua consciência sobre corpo e mente e também sobre seu lugar e sobre os outros. Distanciar-se é uma boa escolha a se fazer vez ou outra para fortalecer os tecidos da existência e compreender o que realmente se quer da vida. Não é à toa que tradicionalmente, em distintas culturas, sábios e mestres vão às montanhas, aos desertos ou à floresta para pensar melhor ou ver de outra perspectiva, e também não é à toa que viagens são um dos principais testes para os relacionamentos.
Recentemente fui a Buenos Aires pela quinta vez (poderia ter ido à Pirenópolis pela décima, tanto faz...). E mais um pedacinho de mim entrou em mudança. Conversei com a amiga entristecida pela situação do seu país, passeei com outra que me contava sobre seus anseios. Humanos desejosos de vidas melhores... Erramos e acertamos, rimos e choramos, como experiência individual ou coletiva, e não necessariamente nessa ordem. Pensando nisso, e ouvindo tantas histórias no meu caminho, fiquei na cabeça com a frase de um outro amigo: “cometo muitos erros, Tatiana”.
Pois bem, acredito de verdade que todos nós cometemos muitos erros ao longo da vida. A diferença é que alguns dizem que não se arrependem de nada e outros, como eu, se arrependem bastante de alguns deles. Seria hipócrita dizer que não me arrependo de coisas que fiz, claro que sim, me arrependo. Se pudesse voltaria atrás, mas isso não me paralisa no passado, porque a vida é sempre para frente. Aprendo com o deslize e tento não fazer mais do mesmo.
Também acredito que todos – sem exceção - nos sentimos desesperançados, sozinhos ou abandonados em alguns momentos - ou em muitos momentos dessa vida. E é legítimo – em meio ao sentimento triste - acharmos que somos os únicos a sofrer nesse mundo de deus. Porém, é claro que você sabe que não, você não é o único que sofre e se sente descuidado.
Existem vários níveis de sofrimento, mas isso aqui não é um texto sobre o “ranking” do sofrer... e, na verdade, é bem narcísico aquele que não consegue escutar o amargo do outro sem falar de si mesmo. Temos que aprender a escutar. Somente escutar. Silêncio e reverência diante de uma vida e do que ela está contando. Aprender a dar a mão e a caminhar junto. Caminhar, escutar, acolher, crescer junto. Aquele antigo costume de relacionar-se tête-à-tête que esquecemos com tanta tecnologia e aplicativo.
E para finalizar, estou vendo uma série sobre o “tour de france” com meu filho. Gosto muito de ver séries e filmes sobre esportes radicais porque é ali que meu ego, medroso, porém ávido por aventuras, se deleita nesses outros, esportistas radicais, corajosos, sem medo da morte. Desejaria ser assim...
No “tour de france” só tem ciclista de elite, os melhores do mundo, jovens, hiper-preparados, um nível incomparável. Todo circuito é uma loucura, cheio de etapas, uma mais difícil que a outra. O que mais tem me surpreendido nas entrevistas da série é que se fala muito em sofrimento, exaustão, limite insuportável, sempre voltam a dizer que “se você não consegue aguentar o desgaste físico e a adversidade do tour, você não pode estar nele”. Um entrevistado compara esse tipo de ciclismo com o jogo de futebol, dizendo que no futebol existe a substituição se acontecer algo com o jogador, mas que ali não. Ali o ciclista tem que prosseguir mesmo com dor durante a etapa, a não ser que ele literalmente morra ou tenha um acidente grave.
Há momentos que são só subidas.... subida, subida, subida. Dá uma aflição só de assistir...
Um dos ciclistas diz que há determinadas situações durante o circuito em que a cabeça quer continuar, deseja ganhar, mas o corpo não responde. Ao mesmo tempo em que quando conseguem terminar a etapa e, ainda por cima em primeiro lugar, relatam que é “como voar"ou "ser livre”.
Tudo isso me fez pensar que a vida é como um “tour de france”. Há várias etapas e, sim, somos capacitados para essa jornada. Nascemos capazes, do contrário, não tínhamos nascido. Penso assim. Temos tudo o que precisamos. De certa forma somos ciclistas de alto nível, e igual a eles, de vez em quando caímos uns em cima dos outros, nos machucamos, começamos a subir e queremos desistir... e também é certo que desistimos, faz parte. Porém, é na chegada, ou quando avançamos uma etapa, ou mesmo quando terminamos o “tour”, que sentimos essa sensação de dever cumprido, de integridade do ser, de voar, de encontrar-se no melhor lugar do mundo.
Eu aprendo demais com os amigos nas viagens e com esses esportistas top de linha. É preciso ter coragem e um pouco de audácia para avançar.
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